Domingo, 30.10.11

Entrevista sobre Geoestrategia a José Manuel Felix Ribeiro

Entrevista sobre Geoestrategia a Jose Manuel Felix Ribeiro

Entrevistas sobre o futuro

A Europa vai ser comprada pela China e pelos príncipes árabes

A Alemanha quer o euro porque quer redesenhar o mapa monetário mundial. A China quer o euro porque não quer ficar sozinha com os EUA. Portugal, para sobreviver, vai ter de tirar partido da globalização. No cenário, optimista, de a globalização sobreviver à crise.

Por Teresa de Sousa


José Manuel Félix Ribeiro, economista, em véspera de aposentação, foi subdirector-geral do Departamento de Prospectiva e Planeamento (DPP) e foi aí que produziu os mais conhecidos exercícios de cenarização sobre a economia portuguesa, sobre os futuros possíveis da Europa ou do mundo. Raramente dá entrevistas. O que pensa é o produto de uma mente brilhante somada a uma vasta informação sobre o que se passa no mundo: em Pequim ou na casa real saudita, nos sectores mais inovadores dos EUA ou na prodigiosa empresa de petróleos norueguesa. Evita opiniões taxativas sobre o país. Fornece hipóteses num contexto internacional de profunda incerteza. Polémico e pessimista.

Vivemos uma tripla crise: mundial, europeia e nacional. Podemos começar por aquela que mais nos condiciona, a crise europeia. Como é que a Europa pode sair daqui?

Estive recentemente na Universidade Católica do Porto para falar dessa questão e resolvi fazer uma coisa sobre a Europa, o euro e a China. A minha ideia, que pode estar completamente errada, é que temos de começar por compreender por que é que os alemães foram forçados a aderir ao euro e que o euro, na prática, não é uma resposta europeia à globalização. É, antes do mais, uma resposta à unificação alemã.

E uma resposta política, antes de ser económica.

Política. Não vejo que a Alemanha queira sair do euro nem que a sobrevivência do euro esteja em causa. Penso que a Alemanha tem uma ambição, que esta crise veio fortalecer, que é a de redesenhar o mapa monetário mundial. O que uma parte da elite alemã gostaria era que tivéssemos um sistema monetário com três pólos: o dólar, o euro e o yuan chinês. Há uma parte dessa elite que vive muito mal com o modelo anglo-saxónico de capitalismo e com o seu domínio da economia mundial. Nessa medida, seria um suicídio colocar em causa o próprio euro, porque é ele que lhe dá, apesar de tudo, uma outra dimensão para negociar este sistema tripolar que o marco dificilmente teria mesmo que fosse agora reinventado.

A Alemanha quer preservar o euro mas em que condições?

O que está em causa é a necessidade de consolidar o controlo sobre o euro para que possa ter um papel muito mais importante no futuro. E esse controlo tem de ser acompanhado por outra coisa: a Alemanha quer pagar o menos possível para salvar economias que vê como relativamente inviáveis.

As economias da Europa do Sul?

Sim. E o problema é que hoje a Europa do Sul, ao contrário do que aconteceu nas décadas anteriores, já não é um mercado fundamental para a Alemanha e os alemães vêem-na como um peso que não querem ser os únicos a ter de suportar.

Está a dizer que a Alemanha ficaria satisfeita se os países do Sul saíssem do euro? Isso não seria a sua condenação?

Não vou dizer isso, porque não sei. Essa é a discussão sobre o que quer realmente a Alemanha. Apenas acho que não quer sair do euro, a não ser que seja completamente forçada. Eles quiseram pregar um grande susto à Europa. Mas mesmo um grande susto. Querem impor alguma ordem. Não sei se querem mais alguma coisa.

A UE, tal como existe, ainda é aquela que serve os interesses mundiais da Alemanha?

O que me parece é que os alemães têm uma estratégia clara na qual a China e a Rússia são chave. A China, para venderem aquilo que produzem, e a Rússia para comprarem energia e também desenvolverem a industrialização. Entre a Rússia e a China, a Alemanha tem uma nova estratégia. Mas também admito que não possa separar-se completamente dos Estados Unidos. O ideal, para ela, era que os EUA se dessem bem com a Rússia. Isso favorece o jogo alemão porque pode pôr em prática [a sua estratégia] sem ter de fazer escolhas.

Onde é que entra a China?

A Alemanha sabe que pode contar com a China porque Pequim não quer ficar sozinha com o dólar para o resto da vida. A China é a única entidade no mundo convictamente empenhada - pelo menos enquanto esta direcção lá estiver - em que o euro não se afunde. Quer ter outro parceiro que não seja apenas o dólar e, portanto, no que puder ajudar, fá-lo-á. Comprar dívida emitida por entidades europeias...

Já está a fazê-lo.

Só que há aí um outro problema: a China não sabe muito bem o que é isto da União Europeia, deve fazer-lhe alguma confusão esta coisa de 27 países que decidem tudo numa grande conversa. Precisa de alguém em quem confiar e acho que confia na Alemanha. Os alemães sabem que têm as costas quentes, que a entidade mundial que mais pode ajudar o euro está com eles. Estão relativamente à vontade. Quem deve estar relativamente aflito é a França. São os que vierem a seguir [a Merkel e a Sarkozy] que vão ter, ou não, alguma capacidade para se entender.

Sobre quê?

Não sei. Mas a essa pergunta só se pode responder com outra: os outros países, que não a Alemanha, para onde é que podem ir? Para lado nenhum. A Alemanha está bastante à vontade.

Mas há também fragilidades dentro da própria Alemanha que não tornam as coisas assim tão simples. A Alemanha tem dois problemas. O primeiro é que é uma economia muito exportadora mas não é inovadora. Não há nada de novo que a Alemanha tenha criado nos últimos 50 anos. É extraordinária a melhorar aquilo que já faz há quase 150 anos: automóveis, mecânica, química. Está muito bem adaptada para fornecer países que se industrializam, que se urbanizam e que se motorizam. Mas tem uma grande dificuldade em inovar sobretudo quando as economias desenvolvidas passaram a ser economias terciárias. No sector dos serviços, já praticamente não há um nome alemão.

Isso quer dizer que o seu modelo pode esgotar-se rapidamente?

Isso quer dizer que está esgotado e que ainda tem vida apenas porque há economias emergentes. O segundo problema é que o modelo alemão, em termos financeiros, é totalmente oposto ao dos EUA e ao do mundo anglo-saxónico - é um modelo centrado nos bancos.

Os alemães continuam a poupar muito e a colocar muitos depósitos nos seus bancos. Esses bancos tinham tradicionalmente uma relação muito estreita com a indústria alemã, para onde canalizavam o seu dinheiro. O que acontece é que hoje a grande indústria alemã financia-se nos mercados de capitais, que são uma invenção anglo-saxónica. Com muitos depósitos a afluir e com menos negócios tradicionais para aplicar o dinheiro, eles tiveram de ir à procura de aplicações altamente rentáveis e foram comprar coisas como o subprime, do qual foram os segundos grandes compradores. Importaram um vírus que o seu sistema imunitário não tem capacidade para gerir. E, então, para tentar obter novas receitas que lhes permitissem apagar os prejuízos que aquilo ia criar, lançaram-se a comprar dívida soberana dos países do Sul [da Europa].

E estão amarrados de pés e mãos.

É essa a minha opinião. E isso é uma segunda grande fraqueza, que limita a margem de manobra alemã. Os espanhóis já percebem isto perfeitamente e sabem que um default desorganizado da Europa do Sul lhes seria fatal... Isso faz com que haja um factor de coesão mas, ao mesmo tempo, de muita tensão: os espanhóis não gostam de ser maltratados e os alemães de estar amarrados.

O modelo alemão tem as limitações que descreveu. O modelo anglo-saxónico está a atravessar uma crise. Como é que a China joga com isto?

Não sei, mas admito que quem deve estar assustado são os chineses.

É preciso compreender a crise financeira de 2008. Os EUA são uma economia que tem défices correntes com toda a gente - com a Europa, com os produtores de petr? leo, China, Japão, Taiwan. E isso é uma coisa absolutamente lógica. Os EUA permitiram que a Ásia se desenvolvesse ao transferirem para lá a produção de muitas das coisas que consomem. O que acontece é que nenhum dos outros possui um sistema financeiro próprio capaz de reciclar essa quantidade toda de dólares e, por isso, tem de recolocá-los nos EUA. A questão fundamental é que os Estados Unidos têm de produzir activos em que toda a gente confie e queira comprar como forma de colocar as suas poupanças. O grande problema que penso estar na base desta crise financeira foi que, pela primeira vez, os EUA não tinham activos suficientes para colocar. O Lehman, o Morgan Stanley, eram absolutamente cruciais na economia mundial porque são eles que transformam latão em ouro e que o colocam à venda no mundo inteiro. Não vale a pena dizer que a crise se deve a um bando de gananciosos. O grande problema, que pode marcar o fim da globalização e o declínio americano, é a incapacidade de produzir esses activos.

Este modelo de globalização tem de ter sempre no seu centro os Estados Unidos, com os seus défices. Que funcionam como uma espécie de capital de risco do mundo inteiro.

A China tem a noção disso?

A China precisa dos EUA mas não quer que a Europa desapareça do mapa e fará tudo para ajudar a mantê-la. Já está a comprar títulos de dívida gregos e espanhóis.

A questão é outra. A Espanha andou a criar uns leitõezinhos que já são muito apetitosos: a Telefónica, a Repsol, a Iberdrola, etc. No nosso caso, a Galp, por exemplo. Penso que esta crise é aquela em que alguém vai dizer: meus caros amigos, é altura de os leitões irem para o mercado para serem comprados por quem tiver dinheiro para comprar. O pior que pode acontecer nesta crise é haver uma transferência maciça da propriedade no Sul. É os chineses comprarem tudo o que lhes interessa na Grécia - o Pireu, os armadores...

E em Espanha e Portugal?

Os árabes, talvez. A Europa vai ser salva pelas compras dos chineses e dos árabes e, no caso português, também dos angolanos. Esta é a parte económica, que pode ser muito complicada pela parte geopolítica.

Como?

Em boa medida, por causa da energia. O abastecimento energético da China é um problema-chave para o seu futuro. Eles tinham três hipóteses de o resolver. A primeira era irem para o off-shore do Mar do Sul da China, mas aí tinham um grande problema. A China é uma entidade que não existe, economicamente falando. Tem a fatia costeira que faz parte do mundo da globalização e tem o resto. Esta parte costeira viveria muito bem sem nenhuma ligação com esse resto, da mesma maneira que vivem os coreanos, os japoneses, os taiwaneses, exportando produtos e importando o que não têm. Esta zona próspera e em crescimento - foi esta zona que os EUA arrancaram do atraso - tem toda a vantagem na continuação da globalização, dificilmente pode viver sem ela.

Se os chineses fossem para a opção do off-shore, esta região ainda ficava mais independente e ainda precisaria menos do resto da China. O poder em Pequim tem perfeita consciência do risco que isso comporta e, por isso, defende uma segunda hipótese, a hipótese continental, em que tem de ir buscar o petróleo e o gás à Rússia e, sobretudo, à Ásia Central, que tem de atravessar toda a China. Isso permite-lhes convencer essa China da faixa litoral de que precisa do resto do país e de que precisa do poder central para organizar isto tudo.

A terceira alternativa é dizer: para já, vamos ao Golfo Pérsico e a Angola buscar a energia de que precisamos. Isso tem um problema: as linhas de comunicação marítimas são extensíssimas e quem garante a sua segurança é a América. A dada altura deve haver uns almirantes loucos em Pequim que vão dizer: temos de constituir uma grande marinha. E no dia em que decidirem fazer isso a guerra está no horizonte.

Isso contraria a nossa ideia de que o desenvolvimento ajudará a integrar a China.

Ninguém liga nenhuma a estas coisas mas elas são fundamentais. O poder em Pequim tenta resolver este imbróglio optando pela Ásia Central. Mas aí vamos ter ao Afeganistão. No dia em que os americanos saírem, vamos ter a Índia, que não quer que os chineses vão para lá; os russos, que não querem que os chineses vão para lá; e os chineses que vão entrar lá de mãos dadas com os taliban com que estavam a negociar antes do 11 de Setembro. Porque o controlo sobre o Afeganistão é a chave para uma estratégia de abastecimento por via da Ásia Central. É a única que lhes permite resolver o problema dos almirantes loucos.

Ou as rotas ou o Afeganistão?

E uma terceira, que é quando [a secretária de Estado Hillary] Clinton vai ao Vietname e declara que os EUA querem pacificar o Mar do Sul da China, que é precisamente onde os chineses também podem ir buscar petróleo. Em todos os sítios onde eles querem ir buscar petróleo, os americanos estão envolvidos.

Neste jogo global, qual é o papel da Europa?

A Europa vai ser comprada pela China e pelos príncipes árabes.

E se isso, por hipótese, acontecer, que papel lhe resta?

Vai dividir-se em dois grupos. O Reino Unido já foi à Índia dizer que os paquistaneses eram uns patifes, porque sabe que eles são os aliados da China para este jogo. O que [o primeiro-ministro David] Cameron foi lá dizer agora foi o seguinte: nós estamos com a Índia e não com a China. Está a ver perfeitamente o jogo e ficará deste lado.

Quanto aos árabes, ainda não consigo perceber verdadeiramente o que querem. Há na OPEP um conjunto de gente que quer atacar a importância do dólar e deixar de depender de um dólar que eles temem que vá colapsar.

E também lhes interessa apostar no euro?

Exactamente. Vão continuar a dispor de grandes excedentes que lhes dão para comprara a Repsol e os outros leitõezinhos. Vamos ter uma Europa cheia de príncipes nos conselhos de administração e de chineses a financiar os Estados. E isso vai permitir que a Europa sobreviva.

Sobreviva?

É o nosso pequeno mundo. O grande mundo é a OPEP e também o Irão, a China e os EUA.

Como é que nós, portugueses, nos vamos adaptar a esta nova situação?

Penso que os alemães simpatizam connosco. Investiram cá, têm uma boa experiência, e não fizemos nada recentemente que os levasse a mudar de atitude. Portugal acumulou um capital relativamente à Alemanha que é positivo e que o distingue da Grécia. Mesmo passando entre os pingos da chuva, não estamos assim tão mal no nosso relacionamento político.

Com a Alemanha? Nos cenários que fez em 2002 colocava três alinhamentos possíveis - a opção ibérica, o alinhamento francês e a "Casa de Borgonha", que seria com o Benelux. A ibérica está em discussão - entre eles e entre nós. A França está em situação difícil e o Benelux falhou.

Não sei. Eu estou à janela e apenas posso dizer: aquele que está a passar ali vai ser atropelado. Penso, no entanto, que a Holanda continua a ser crucial e, quando a Bélgica se desintegrar, a Flandres pode ser a nossa maior amiga. É preciso reflectir muito sobre isto, mas creio que há três países que nos interessam: a Alemanha, a Holanda e a Noruega.

A Noruega?

A Noruega devia ser o nosso aliado principal por causa do petróleo, do mar e da exploração da plataforma continental.

Alguns dos cenários do exercício que fez mais recentemente [Portugal 2025 - que funções no espaço europeu, cuja recente actualização considera quatro cenários: "Florida Europeia", "Plataforma Asiática", "Escócia do Sul", "Ponte Atlântica"] consideram a plataforma energética que poderíamos constituir como relevante.

Exacto. Por isso, a Noruega é um parceiro possível - é atlântico e está muito próximo da UE. Fizemos um trabalho sobre as empresas energéticas na Europa e a Statoil [norueguesa] é uma coisa extraordinária - a forma como eles conseguiram estar no mundo inteiro. Mas falo da Noruega se decidirmos fazer uma aposta na plataforma continental, na sua extensão. Os alemães podem também estar interessados, porque não têm mar. Mas entre alemães, noruegueses e holandeses... A Noruega e a Holanda são o mundo atlântico. A Alemanha é o mundo europeu de que não podemos fugir.

Isto não tem de ser contra a Espanha...

Mas há um elemento permanente na cenarização para 2025 que passa pela ideia de que não deveremos ser apenas a fachada atlântica da Espanha.

Esse problema existe, só que uma parte da elite portuguesa não o quer ver. O actual Governo era "Espanha, Espanha, Espanha". Cavaco Silva era "Espanha, Espanha, Espanha". Temos de ter uma boa relação com a Espanha. Isso está fora de causa, mas temos de ver é como é que fazemos isso.

Voltando aos cenários. Parece-me comum a todos que a geografia volta a ganhar peso, depois de ter sido, de algum modo, absorvida pela Europa. É essa a mudança?

A questão central é que, em qualquer dos cenários, Portugal tem de se tornar mais atractivo. Na nossa encarnação anterior, não precisávamos de ser particularmente atractivos. Bastava sermos bem-comportados, cumpridores das normas europeias. Isso até nos criou alguma respeitabilidade. Íamos subindo os degraus.

O que me parece é que, neste estado de tensão em que a Europa vai estar, temos de ter uma maior consciência daquilo que podemos querer.

Que já não pode ser o mesmo?

O nosso percurso de convergência com a UE foi interrompido há 10 anos e agora agravado pela crise.

A resposta que foi dada à crise por este Governo é muito interessante. É uma resposta de emergência, mas o facto é que fomos ter à Líbia, Argélia, Venezuela e Angola. A primeira razão é o petróleo. Mas há outra coisa em comum: à excepção de Angola, todos têm relações tensas com os EUA. Fomos à procura de parceiros que estão completamente fora do nosso alinhamento estratégico, embora pudessem dar bons negócios. Conseguiu-se aumentar as exportações para esses países. O primeiro-ministro fez como Paulo Portas: passou a ir às feiras. Estava habituado a andar nos supermercados e passou a ir às feiras. Não estou a pôr isso em causa, possivelmente não podia fazer outra coisa...

É aí que entram os outros cenários. Num dos que considera, podemos transformar-nos numa plataforma intercontinental alinhada com a Ásia, em que o investimento que substitui o alemão é o asiático...

Mas que se insere muito bem nesta estratégia da Europa próxima da Ásia... O primeiro-ministro chinês, nas declarações que fez sobre o euro, disse que não nos podemos esquecer que a Europa é sempre um campo de investimento prioritário para a China.

E há ainda outro cenário que é o "escocês"...

Esse é apenas se houver descobertas de petróleo e de gás no nosso off-shore, o que provocaria uma grande mudança. Mas mesmo não havendo petróleo, esse cenário não é impossível. Utilizei a ideia da Escócia porque ela se desenvolveu muito fornecendo serviços de engenharia para o Mar do Norte. Desse ponto de vista, a bacia da África Ocidental podia ser o nosso Mar do Norte. Essa função podia ser desenvolvida aqui e o Brasil pode ser um parceiro fundamental.

No outro cenário, o da "ponte atlântica", estamos com o Brasil mas mais numa posição subalterna. É a ideia de que a CPLP pode ter indonésios, australianos - é aquele em que podemos tentar fazer do mundo de expressão portuguesa uma força. Penso, no entanto, que só temos interesse nisso se conseguirmos alinhar mais o mundo de expressão portuguesa com o mundo de expressão anglo-saxónica. Porque o primeiro, sozinho, nunca tem muita força.

O que também há de comum é a ideia de que deveríamos aproveitar melhor a globalização...

Estes cenários são do DPP, mas são feitos por mim. Se o DPP tivesse de se pronunciar hoje, preferiria que eu nunca os tivesse feito. Está numa posição muito melindrosa. A maneira como encaram isto, os mais novos, é diferente. Tudo isto foi feito por uma geração - a nossa - que foi ensinada desde pequena na gestão dos conflitos e na paixão pelos conflitos. A geração deles é a geração da procura da felicidade.

Só que a crise mundial obriga-nos a pensar no que pode correr mal.

O grande problema é que a adesão à moeda única teve como consequência uma fuga generalizada perante a globalização. Quem se endividou mais não foi o Estado, foram os bancos, para alimentar o consumo interno. E esse consumo é uma forma de alimentar as exportações alemãs e italianas, etc. Isso teve duas consequências: facilitou as importações e criou uma atracção enorme pela terra e pelo investimento no imobiliário como grande forma de obter lucro. As famílias podem consumir importando porque têm financiamento bancário e o sector empresarial tem uma oportunidade enorme em torno da terra - da terra para os portugueses e depois, pelos PIN [Projectos de Interesse Nacional], a terra para estrangeiros. Foi esse o esquema que nos levou a uma situação muito complicada. Temos cada vez menos para oferecer para o exterior. O facto de deixarmos de importar não acho mal, o problema é que se criou um sector de emprego muito grande à volta daquilo que se importa. Basta ir aos centros comerciais.

E os grupos económicos e a banca vivem do mercado interno.

No ano passado, a ANEOP [Associação Nacional dos Empreiteiros de Obras Públicas] fez uma publicação maravilhosa que dizia o seguinte: a construção, ela própria, representa 8 por cento do PIB em 2009; o cluster da construção no sentido mais alargado - matérias de construção, promoção imobiliária, serviços ligados à habitação, obras públicas - representa 18 por cento do PIB e absorve 72 por cento da totalidade do crédito concedido pelo sistema bancário. O que sobra é para as PT, as EDP e o resto é nada. É um problema diabólico.

Precisamos de atrair investimento, o que pode implicar várias coisas, entre as quais um sistema fiscal mais competitivo.

A fiscalidade não é tudo. Trouxemos cá o presidente da Infosys [empresa indiana líder mundial nas tecnologias da informação], o senhor Murty, para uma coisa sobre as tecnologias da informação. Queríamos trazer alguém de topo no sector e que fosse indiano. O senhor foi capa da Time mas aceitou vir cá com muita facilidade, trouxe a mulher e umas amigas da mulher que eram goesas, foram aos Jerónimos e tudo isso. A certa altura, quando o trazíamos do aeroporto, perguntámos-lhe porque é que nunca tinha investido em Portugal. Ele respondeu que, para isso, tinha que ter resposta a algumas perguntas prévias. Quais eram as perguntas? Como é que é a relação das vossas crianças com a matemática; a partir de que ano é que escrevem e falam inglês correctamente; como é que estão de talentos; e quantos engenheiros informáticos formam por ano.

Quando foi isso?

Em 2007. Levámo-lo à Agência de Investimento, onde foi muito bem recebido e lhe explicaram que Portugal era fantástico, não tinha greves, era flexível, o IRC era de 25 por cento. Ele ficou calado todo o tempo. Até que lhe perguntaram o que é que achava. Ele respondeu mais ou menos isto: "Achei tudo muito interessante, mas só quero fazer uma pergunta: eu posso premiar os melhores ou não?"

Essas quatro coisas que ele mencionou têm todas a ver com o capital humano e nada com fiscalidade.

Absolutamente. E a outra, tem a ver com o processo de organização social. O que estou a dizer é que, por exemplo, para uma fábrica de automóveis a questão dos impostos é chave. Mas para ter empresas informáticas ou clínicas de alta qualidade, pode não ser tão importante. Isso obrigaria a ver, em primeiro lugar, o que é que queremos atrair nesta fase e o que podemos atrair. E até podemos concluir que é muito mais importante no futuro não ter um IRS muito pesado sobre os quadros do que ter um IRC baixo para as empresas. O cenário da Florida, por exemplo, tem muito mais a ver com talentos.

Já produzimos alguns talentos mas a tendência parece ser a de se irem embora.

Essa questão só se resolve com investimento estrangeiro. E a única alínea da política industrial de um país como Portugal é a atracção de investimento.

Olhando para os cenários que nos projectam mais na globalização, onde é que precisamos de apostar?

Este trabalho que fizemos agora para a ANEOP está muito centrado nas infra-estruturas para lhes chamar a atenção de que, conforme os cenários, assim será a actividade no sector. O cenário da "plataforma asiática" é o mais exigente em infra-estruturas. Grande aeroporto, porto de águas profundas (Sines), caminho-de-ferro para mercadorias para a Europa.

Mas não vale a pena pensar em infra-estruturas se não estivermos, ao mesmo tempo, a atrair os investimentos que necessitem delas. É isso que me custa a perceber, não sermos capazes desse exercício... Temos de encontrar quem são os actores que estão interessados em vir para aqui. E isso não se pode definir à partida, embora haja coisas que se podem saber. Penso, por exemplo, que devemos olhar para Estados intersticiais como Singapura ou o Qatar, com pouca base territorial, mas ligados ao mundo e que precisam de bases. Devíamos olhar para eles como aliados para fazermos aeroportos ou portos de águas profundas ou para termos parceiros para a TAP.

Onde é que vamos encontrar os actores políticos, económicos, sociais para conseguirmos isso?

O que vai tornar este período mais difícil é ainda não se saber exactamente a natureza desta crise. Se esta crise for uma crise de rearrumação da globalização, quem estiver cá a governar vai ter de exercer funções que antes não eram precisas por causa da Europa. Vamos demorar tempo até nos adaptarmos a esta nova realidade e vai levar tempo a que a classe política evolua. Isso não quer dizer que a Europa não tivesse sido boa. Mas criou, em simultâneo, um modelo de funcionamento que não gera as exigências que agora vão ser precisas. As pessoas espantam-se que os dirigentes políticos tenham perdido qualidade. Era inevitável. Era um grupo que devia apenas seguir o que se decidia em Bruxelas, não era preciso mais.

Agora, vamos atravessar um processo dramático onde vão aparecer muitos falsos profetas mas em que o nível vai mesmo ter de acabar por subir. Imagino que sim
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Quarta-feira, 03.08.11

Combater o populismo aprofundando a Democracia.

É em épocas de crise, que o sistema capitalista atravessa, que aparecem as propostas populistas. Os seus  mentores e actores não são apartidários nem contra as ideologias, eles têm uma ideologia, um objectivo - acabar com a Democracia representativa, tal como nós os europeus a concebemos. A facilidade das suas propostas para resolver as crises só gera o ódio e a guerra, os populistas não são a solução, são parte do problema das sociedades livres. Pois eles, mais não fazem do que aproveitar as desilusões e angústias porque passa hoje os povos, (fruto de políticas estafadas e ausência de refundação e ética das famílias políticas que construiram o nosso estado social, após a 2ª guerra mundial).  Os populistas, sendo contra o Estado-Providência, não têm escrúpulos em cavalgar a onda de revolta que envolve os eleitores. Hoje mais do que nunca é necessário redefinir um novo contrato social, com o sentido de encontrar uma sociedade mais igualitária.  

 

 


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Terça-feira, 26.07.11

O FIM DA ILUSÃO - Medina Carreira

O Fim da IlusãoHá muitos anos que Medina Carreira vinha alertando políticos, governantes e cidadãos comuns para o mais do que provável colapso das finanças públicas. A situação de aperto que Portugal vive neste momento teria sido evitada se, dando ouvidos às previsões certeiras de Medina Carreira, o País tivesse sido alvo de um conjunto de reformas estruturais condicentes com a nova ordem mundial. Este livro oferece ao leitor uma visão muito clara das causas do colapso financeiro e de como este poderia ter sido evitado. Ao mesmo tempo, alerta para a necessidade imperiosa de levar a cabo uma transformação profunda do País a vários níveis, que o coloque definitivamente no rumo da sustentabilidade. Sem ilusões.

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Portugal na Hora da Verdade

Agora que iniciamos a segunda década do novo século, não restam dúvidas de que Portugal enfrenta actualmente a crise de um século: o pior crescimento económico médio desde a  Primeira Guerra Mundial; a taxa de desemprego mais elevada dos últimos 80 anos; a maior dívida pública dos últimos 160 anos; a maior dívida externa dos últimos 120 anos (desde 1892, quando tivemos de declarar bancarrota); o regresso em força dos portugueses à emigração.

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Joseph Sitglitz. O Prémio Nobel da Economia falou da necessidade de os governos regularem os mercados.

O primeiro encontro do movimento espanhol 15-M, que dá voz aos trabalhadores precários espanhóis e aos indignados contra a crise, contou com a visita surpresa do economista Joseph Sitglitz. O Prémio Nobel da Economia falou da necessidade de os governos regularem os mercados.

O primeiro Fórum do movimento 15-M, que contesta a precariedade laboral e as dificuldades dos trabalhadores espanhóis, recebeu na segunda-feira a visita surpresa de Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia.


O economista norte-americano surpreendeu os apoiantes do movimento com a sua presença no Parque do Retiro, em Madrid, palco do primeiro encontro formal do 15-M, que há semanas ocupou as principais praças das grandes cidades espanholas, em protesto contra a falta de resposta governamental para as consequências da crise económica. 

Sitglitz manifestou a sua simpatia para com a “energia” do movimento 15-M e defendeu a necessidade de uma maior regulação dos mercados. “A crise económica mostrou que os problemas actuais do capitalismo com mercados sem regulação. A experiência das três últimas décadas demonstra a necessidade de os governos terem um papel importante na regulação dos mercados”, afirmou o Nobel, citado pelo “El País”.

Num discurso de 12 minutos, partilhado com o seu tradutor, o economista deixou um desejo à plateia: “vejo aqui uma energia reconfortante, espero que a useis de forma construtiva. Não se podem substituir as más ideias pela ausência de ideias. Temos é que trocá-las por boas ideias”.

Sitglitz defendeu que se tem que lutar para que as boas ideias “entrem no debate público”, o que exige “organização e liderança”. “Vai ser uma luta difícil porque as más ideias estão instaladas no discurso económico dominante, mas agora temos uma grande oportunidade para associar a ciência económica com o compromisso de justiça social e conseguir uma nova economia. Desejo-vos a melhor sorte”, afirmou na despedida.

Neste primeiro encontro formal do movimento, que durou todo o dia, participaram entre 200 e 300 pessoas. Houve vários temas em discussão, relacionados com política internacional, meio-ambiente, educação, feminismo, democracia participativa, economia, cultura, saúde, temas sociais, entre outros, de acordo com o relato do “El País”.

Aqui está uma boa iniciativa, livre,( eles não querem nem acreditam no entanto o mundo gira), sem estar acorrentada aos vendedores de ilusões, a maioria da chamada classe politica, que têm lançado, e vão continuar a lançar, para o desemprego, milhões de pessoas, seres humanos, se estes não ousarem lutar!
Levantai-vos do chão!
publicado por Barto lo meu às 11:36 | link do post | comentar

A geração Facebook.

O secretário-geral das Nações Unidas apelou hoje aos governos para que invistam na juventude, lembrando que a 'geração Facebook' é constituída pelos líderes do futuro.

 

Ban Ki-Moon considerou que a crise económica mundial e as medidas de austeridade "restringem as oportunidades" dos mais jovens e recordou aos governos que "não investir na juventude é criar uma falsa economia", noticia a Efe.

 

A comunidade internacional "deve trabalhar para alargar o horizonte de oportunidade dos mais jovens e responder às suas legítimas pretensões de um trabalho digno e decente", afirmou o responsável da ONU, durante um encontro de alto nível a propósito do Ano Internacional da Juventude.

 

Ban Ki-Moon aludiu ainda à capacidade de liderar a mudança mostrada pela 'geração Facebook', como apelidou os jovens, pelo uso das redes sociais para conseguir alterações mobilizar massas e conquistar alterações sociais.

 

"A geração Facebook está a mostrar uma determinação crescente para mudar o nosso mundo e uma capacidade para fazer com que as coisas se modifiquem", sublinhou.

 

Acrescentou que os jovens são quem tem a "energia e coragem" necessárias para que o mundo enfrente "os assuntos mais complicados que tem pela frente".

 

O secretário-geral da ONU recordou que os jovens estiveram no centro da mudança que ocorreu desde o norte de África ao Médio Oriente.

 

Centenas de jovens, representantes governamentais e de organizações juvenis estão reunidos a partir de hoje nas Nações Unidas para o encontro "Juventude: Diálogo e Entendimento Mútuo".

 

O encontro de hoje na sede da ONU iniciou-se com um minuto de silêncio em memória pelas vítimas do duplo atentado terrorista na Noruega.


 Concordo. Apostar ainda nos partidos existentes, é acrescentar mais crise à crise. Basta ver quem o PS elegeu para seu líder. Estes continuam a defender sobretudo  suas tribos! E estas hoje, ainda mais se acomodam, em volta do chefe. Pois todos sabem que vêm aí tempos prolongados de penúria , sem crescimento económico, com muito pouco dinheiro para distribuir! Por isso o pensamento destas facções è : Os jovens que paguem as facturas ou cá ou na emigração! 

publicado por Barto lo meu às 07:02 | link do post | comentar
Domingo, 24.07.11

A história do José Hipólito e da Cesalina Carvalhais- Edição de 21-07-2011 " O Mirante"

Há dez anos a trabalharem na Holanda para pagarem às finanças a penhora da casa dos seus sonhos
A história do José Hipólito e da Cesalina Carvalhais que venderam tudo e emigraram para defenderem o bom nome 

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As notícias que vão abrindo os noticiários das televisões contam cada vez menos a realidade do país em que vivemos. A falência dos políticos portugueses e da política à portuguesa faz com que as nossas principais instituições se degradem e sirvam apenas os interesses de alguns. Vivemos numa democracia, é verdade, mas muitas das instituições que nos sustentam como país são literalmente fascistas nas suas organizações. José Hipólito e Cesalina Carvalhais têm uma história de vida para contar que é um bom exemplo de alguém que é vencido pelo sistema.

Não sei por onde começar a transcrição desta conversa. Tenho a cabeça cheia de ideias para escrever um texto diferente mas por outro lado tenho receio de subverter as regras logo na pior altura que é a de contar uma história de vida que eu considero um bom exemplo. O que me apetecia era pegar nas histórias de uma dúzia de empresários da minha região, que foram à falência nestes últimos dez anos, e depois juntar a história do José Hipólito e da Cesalina Carvalhais que há dez anos saíram deste desgraçado país e emigraram para a Holanda de forma a não sucumbirem nos destroços do país onde nasceram e têm o coração.

Enquanto a conversa vai ganhando corpo no papel, com o barulho do gravador em fundo, começo a ganhar consciência que o meu objectivo não é escrever um livro à Medina Carreira. Só nos altares das igrejas Deus ainda descansa do seu martírio. Nos altares da economia portuguesa já toda a gente perdeu a inocência. E até os políticos já conseguem convencer alguns descrentes que desta vez vão governar mesmo a sério; que daqui por alguns meses não estão todos a ceder outra vez aos lóbis dos banqueiros, dos sindicalistas, dos dirigentes associativos da CAP e da CIP e companhia limitada.

Desfeita a ilusão de que esta história exemplar do José e da Cesalina se podia escrever como se escreve um livro (com muitas páginas e puxando todos os fios do novelo), aqui fica o resumo de duas horas de conversa com um Homem e uma Mulher que eu conheço desde sempre.

O José Hipólito é conhecido na Chamusca como empresário de aluguer de máquinas. É homem de trabalho como os ursos são animais da floresta. E fez de quase tudo na vida antes de viajar para a Holanda. Como quase todos os homens da sua geração começou a trabalhar antes de conhecer os bancos da escola. E nunca mais parou de trabalhar e de dar o seu melhor pela sua terra e pela sua gente. Até ao dia que sentiu que ia ser engolido por esta máfia portuguesa que está a destruir o país e uma sociedade de homens sérios e honestos que não se limitaram a conseguir trabalho para si, e organizaram a vida para terem trabalho também para os seus vizinhos, amigos e cidadãos em geral.

José Hipólito é a prova de que é perigoso conviver com o sistema, ou tentar fazer parte dele, se não tivermos os pés bem assentes no chão. Basta um advogado manhoso, um cliente com más intenções, ou um mau colaborador, e vai tudo por água abaixo. Dinheiro e reputação; vida própria e familiar; sossego e consciência; e, acima de tudo, aquilo que ainda é a maior das riquezas de um homem que é a honra e a vergonha.

Há muito tempo que me recuso a ouvir e ver televisão às horas dos noticiários. Chega de lavagem ao cérebro. Foi a pensar na imagem da minha televisão sem som na hora do jantar que comecei a minha conversa com o José Hipólito e a Cesalina Carvalhais para tentar perceber como é que eles se tinham entendido com os seus chefes de trabalho na hora de chegarem à fábrica holandesa, na região de Zeiland, numa pequena vila chamada Waarde. Eis a resposta que dá início ao discurso directo dos meus dois entrevistados que são um exemplo de resistência às adversidades da vida.

 A língua portuguesa é a nossa maior riqueza.

Com a questão da língua foi difícil, responde Cesalina, mas com a força de vontade de vencer tudo se torna fácil. Gestualmente foi como resolvemos o nosso problema nos primeiros tempos. De resto ainda hoje, e passados quase dez anos, sou a única portuguesa no meio das chinesas. E europeias sou eu e mais quatro. O resto veio do Vietname, da Malásia e do Gana. Falamos muitas línguas ao mesmo tempo (risos). Mas o português é uma língua que está presente em todo o mundo pelas mais variadas circunstâncias. O meu encarregado geral, que é holandês, tem um irmão no Brasil e então aproveita para treinar o português comigo para poder também falar com o irmão. Uma rapariga chinesa que tem um namorado italiano interessa-se muito pelo português e eu vou ensinando o que sei, o que também me ajuda a aprender a língua deles.

Tivemos uma vantagem de início. Já lá tínhamos o nosso filho e a minha nora. E agora também lá temos o nosso neto. Trabalham os dois e foram primeiro que nós. Foi naquela altura, enquanto eu fiquei a arrumar a casa em Portugal, depois de decidir que a melhor forma de resolver a nossa vida era emigrar, conta José Hipólito. Foram eles que nos arranjaram trabalho. Na altura não havia portugueses naquela região agora são mais que os holandeses.

Mas afinal o que é que fez transbordar a água do copo e vender tudo e deixar para trás uma vida de trabalho?

Não foi só um problema com falta de pagamentos e compromissos que assumiram comigo. Foram várias situações. Algumas são pequenas dívidas mas tudo somado dava muito dinheiro. Mas eu conto-te os casos principais para perceberes melhor. Para sair destes trabalhinhos por aqui que só empatavam comecei a transportar pedra para Itália.

No ano 2000 fomos para França fazer a campanha da beterraba e só aí ficaram sessenta mil euros. Isso complicou tudo ainda mais. Mas onde tudo começou verdadeiramente foi aqui na Chamusca ao fazer o aterro do edifício da antiga Zona Agrária. Ficaram-me a dever quase 15 mil euros. Na altura era muito dinheiro. Meti a firma em tribunal porque já não aguentava mais que fizessem pouco de mim. Esta história é muito engraçada e talvez pudesses escrever um livro com ela se tivesses vagar para fazer pesquisa. A firma em causa, depois de eu fazer queixa em tribunal, por não cumprir os pagamentos, alegou também em tribunal que eu lhes dei um prejuízo de 100 mil euros. E então a partir daí só me pagavam o que me deviam, que eram mais ou menos 10 euros, se eu lhes pagasse os 100 mil. Percebes a chantagem? Já viste como as coisas funcionam? E porque é que eu lhes dei o prejuízo? Porque com o problema em tribunal que eu lhes coloquei por ter feito queixa, eles deixaram de poder concorrer às obras públicas. Foi já para os pressionar a pagarem-me que eu os meti em tribunal. Mas saiu-me o tiro pela culatra. E como retaliaram ainda fui multado por não ter passado as facturas na data certa, o que foi mais outra patifaria que me fizeram. E aqui entra o meu advogado. Ou ele é muito incompetente ou este mundo gira ao contrário e os cães comem com os lobos como já dizia o escritor Aquilino Ribeiro. Ainda por cima é um advogado que em tempos me deu serventia nas obras, que era meu amigo, pessoa a quem eu ajudei noutros tempos da vida pobre. Mais tarde formou-se na advocacia enquanto andou na tropa e é o que já te contei. Entretanto ele passou a rico e eu quase que caía na miséria. Ainda há um mês o procuramos pessoalmente e a resposta foi: eu depois ligo lá para casa para combinarmos o nosso encontro para vermos como vamos fazer no futuro. Foi até hoje. É um processo com dez anos. Estas coisas não se fazem a um cidadão no século XX. Mas eu juro que isto não fica assim. Nem que seja antes da hora da morte eu hei-de conseguir que me façam justiça.

Depois foi aquele trabalho de caminhar para França. Foi um desastre. Somei mais de 60 mil euros de facturação e queriam que eu recebesse aos quinhentos euros de cada vez. Fui para um advogado e a resposta foi que a justiça francesa ainda era mais lenta que a portuguesa. E já lá vai mais de uma década e o dinheiro ainda lá anda. E tinha contrato escrito com essa empresa. Com dois semi-reboques ao serviço deles e quatro motoristas a tempo inteiro. Trabalho de escravo para saírmos da crise, pagando com o corpo, como sempre foi e provavelmente sempre será. O problema é que basta escolher os parceiros errados e está tudo estragado na nossa vida.

A história com a empresa francesa está entregue a uma advogada de Almeirim e a conversa continua na mesma. Dizem que a justiça francesa continua mais lenta que a portuguesa. Mas eu não desisto. Eu sou um fala-barato e tenho amigos franceses que já prometeram ajudar.

Com esses problemas todos resolvi vender tudo e ficar com a minha casa antes de ser leiloada pelo fisco. Passados estes anos todos ainda estou a pagar a casa embora seja pela segunda vez pois ela já estava paga há muitos anos.

Mas ainda estás a pagar porque queres uma vez que já emigraste há quase dez anos?

Não, esse é que é o problema. Um ano e meio depois de emigrar tive um acidente numa máquina que me papou um dedo da mão. Já fiz oito operações ao braço. Isto correu mal logo desde o início e agora não me deixam trabalhar. Temos que viver do meu ordenado mínimo e do ordenado da minha mulher que, ela sim, já tem contrato definitivo e trabalha as horas que pode.

A mim não me deixam trabalhar. Dizem que eu não tenho condições. Só posso fazer voluntariado. Mas posso viajar e ir para onde quiser. E só não estou a fazer voluntariado porque moro muito longe do hospital da região e as viagens ficavam muito caras.

Aos sessenta anos já posso pedir a reforma antecipada. Eu estou a um ano de poder pedir. Julgo que com as nossas duas reformas podemos fazer a nossa vida descansados. Só precisamos de acabar de pagar às finanças, diz Cesalina de volta à conversa a três enquanto ouço os desabafos sobre advogados manhosos e empresários astutos que andam nesta vida para enganar meio mundo.

Vimos dois meses de férias porque faço muitas horas a mais e eles não podem pagar tudo em dinheiro. Se eu receber essas horas mais de setenta e cinco por cento vai para a segurança social. Assim vale mais gozar férias. Aproveitamos para descansar e matar saudades do país, desabafa Cesalina.

Deixei 32 anos de trabalho para trás por causa de não me pagarem. Se me pagassem eu nunca iria para o estrangeiro. Aquilo que eu mais adorava era a minha empresa logo a seguir ao meu filho e à minha mulher. Eu tinha orgulho no meu trabalho e em ver o fruto do meu trabalho. José Hipólito volta a bater no ceguinho e rememora aquilo que teve que viver há uma década para se manter de pé e não fazer má figura com as pessoas que sempre confiaram nele. E nos desabafos que não interessam para esta reportagem curiosamente até os nomes dos homens que trabalhavam no fisco aparecem como pessoas amigas e que sempre o atenderam com simpatia, amizade e consideração. Não há ingratidão nem ressentimento nas suas palavras a não ser para aqueles que o traíram ou fizeram dele gato-sapato.

Quando eu percebi que já não aguentava mais a pressão vendi as máquinas e as camionetas. Tinha cinco retro escavadoras, uma giratória e uma bulldozer, uma D6 H , mais as cinco camionetas. E todas as máquinas tinham um operador. Trabalhava aqui à volta e ia para sul e para norte de Portugal a qualquer dia da semana. Os alicerces das pontes de Fátima para o troço da A1 foram feitos por mim em subempreitada. Foi aí também que eu comecei a ver as minhas dificuldades pois comecei a caminhar para Lisboa, para a 24 de Julho, para receber. Na altura três mil contos de trabalho podiam derrubar um homem. Eu sempre vi as dificuldades à distância. Quando percebia que as coisas estavam a ficar difíceis começava a vender as máquinas para não me enterrar ainda mais. Nessa altura já não era fácil vender máquinas em segunda mão. Então juntava duas e comprava uma nova. E assim fui andando até que chegou a altura das finanças entrarem em acção e quererem a minha casa. E foi aí que resolvi dizer, alto, ponto final nesta história. Fiz as contas e vi que a venda das máquinas todas pagavam as dívidas que eu tinha por aí. Só ficava de fora a dívida às finanças. Negociei e lá vou eu e a minha mulher para a Holanda onde há, apesar de tudo e de todos os defeitos, uma justiça que funciona e uma sociedade organizada onde o poder político não é corrupto e faz crescer a justiça social e a igualdade de direitos a cada geração que passa.

José Hipólito e Cesalina Carvalhais têm ambos 58 anos. Fomos para lá aos 50 anos e devíamos ter ido aos 30. Com o amor à camisola andei aqui pela Chamusca a dar cabo da vida. E tive tantas hipóteses de emigrar para a América. O José Manuel Campos convidou-me tanta vez para ir trabalhar com ele para a América e eu por causa desta vida fui sempre ficando preso às máquinas novas que ia comprando ou trocando pelas velhas. Isto há trinta anos. Estou agora a pagar o preço de ter ficado agarrado às fraldas da terrinha onde nasci e onde gostava de fazer boa figura.

A Cesalina confirma. A vida agora é outra coisa. Não é melhor. Lá isso não é. Só que vivemos mais descansados. Mas quem nunca emigrou não sabe o que se sofre.

Casa trabalho e trabalho casa. É uma vida de escravo. E a Holanda não tem o nosso sol. O tempo é tão irregular. De uma hora para a outra passa de um tempo de Primavera para o tempo de Outono. E a vida perde o encanto porque estamos longe das nossas raízes e das nossas referências e daquilo que sempre sonhamos.

José Hipólito remata a conversa: Ficou muito dinheiro espalhado por aí. Andei a acabar a casa dos outros e a minha ficou por acabar e agora tenho que a pagar duas vezes e com juros bem altos.

 

É a realidade do país que trabalha e que é honrado ! Para os vendedores de ilusões, assim como para os profissionais da distração, o seu país é outro, o de ganhar dinheiro desonestamente, sem olhar a meios! 

 

Portugal não consegue sair do marasmo, e mesmo da decadência, sem resolver o problema da falta de justiça!

 

publicado por Barto lo meu às 16:32 | link do post | comentar
Sábado, 09.07.11

Saber navegar à Bolina

 

O Presidente da República, Cavaco Silva, recomendou hoje "um pouco mais de estudo" aos que sofrem de "ignorância na análise" financeira, numa alusão às agências que, na semana passada, desceram o "rating" de Portugal em quatro níveis.
“Àqueles que sofrem de ignorância na análise, eu apenas posso recomendar um pouco mais de estudo”, disse hoje Cavaco Silva, em Vale do Lobo (Algarve), onde assistiu ao início da 5.ª Taça de Golfe Portugal Solidário. 

Para o Presidente da República, “não há a mínima justificação para que uma agência de notação altere a apreciação que faz da República Portuguesa, quando há informações de que Portugal está a cumprir tudo o que consta do memorando assinado com a União Europeia e o FMI”.

Cavaco Silva quando esteve ao leme sempre gostou de navegar de vento em popa, fugiu sempre das bolinas, (como "bom aluno"  que nunca contraria o mestre, para assim passar), e  deste modo, entregou as pescas, a agricultura e parte da indústria pesada, a troco de milhões de euros. Dinheiro que poucos portugueses sabe onde foi gasto e era salutar,(fazia bem à alma), que soubessem. Hoje com o país perto da bancarrota, parece querer iniciar um novo cruzeiro,(desígnio), mas desta vez ao contrário. O novo rumo é tentar recuperar o que ajudou a destruir, (não deixa de ter mérito a intenção).

Desde o apelo ao consumir português assim como à mobilização  para se voltar aos campos,  pescas e  indústria, passando pela aposta no cluster do mar, o homem procura influenciar as políticas. É um discurso simpático Presidente, mas terá eficácia neste momento de aperto?

Onde vai arranjar pessoas predispostas, e que saibam  trabalhar nesses sectores?  E como vai conseguir atrair  empresários e capital para esses desígnios nacionais que  tão imperiosos são e que hoje já é tarde? 

 

publicado por Barto lo meu às 12:32 | link do post | comentar
Sexta-feira, 08.07.11

O chefe Ruas falou, a corporação autárquica exige!

www.dn.pt

A diminuição de 2% nos quadros das autarquias "causaria problemas sem dúvida nenhuma", disse à Lusa o presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), que considera essa possibilidade "uma imposição cega e irracional".

 

Todos estão de acordo com as medidas de austeridade, mas quando chegam ao seu território....não pode ser, por isto e por aquilo, enfim um manancial de desculpas! É o velho ditado " democracia para mim ditadura para os outros"! As corporações estão vivas e bem vivas, vamos ver como Passos coelho as vai enfrentar como tanto apregoou? É a chamada prova dos nove para este governo. Aumentar impostos, todos o partidos têm feito, por ser o caminho mais fácil, mas conduziu o país à estagnação e recessão económica! Nós precisamos é de crescimento económico e menos burocracia.

publicado por Barto lo meu às 21:39 | link do post | comentar
Segunda-feira, 16.05.11

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"Portugal não tem uma democracia"

por JOÃO CÉU E SILVA 27 Fevereiro 2009

Entrevista:  Vitorino Magalhães Godinho

É um dos mais reputados historiadores e conta no seu currículo com anos de exílio por oposição a Salazar. Especialista na época dos Descobrimentos, mostra-se amargo face à evolução da História nacional no último século. A sua visão do mundo espanta pela modernidade, tal como o uso neste ensaio de palavras como 'PlayStation' e de análises inesperadas pela sua actualidade

Vive-se um tempo em que se lêem mais romances históricos do que livros de História?

Essa questão já foi levantada em 1830 por Alfred de Vigny a propósito de um romance histórico francês e, ao fazer a distinção entre a verdade histórica e a verdade do romance histórico, fazia-o de um modo bastante lúcido: a História dá-nos a evolução geral da sociedade e a ficção apreende as personalidades. Um romance histórico pode ter episódios verdadeiros mas os outros são criações apesar de verosímeis.

Pertenceu a uma escola - a dos Annales - que estudou as massas para além dos heróis!

Tive o ensejo de colaborar numa fase decisiva mas eles próprios tiveram antecessores com essas preocupações. Falamos de Marc Bloch, até pelo seu heroísmo na guerra, mas o pai, Gustave Bloch, era um historiador da mesma envergadura. Os seus estudos sobre a República e o Império Romano são de uma densidade e valor interpretativo extraordinários porque mostram o diálogo entre o colectivo e o individual. E o Lucien Febvre até insistiu que o problema fundamental da História é o da relação entre personalidades e movimentos colectivos! Mas é claro que trouxeram um estudo sistemático das estruturas sociais e dos grandes públicos que acompanham as transformações com o estudo fundamental dos tempos históricos, um estudo hoje muito esquecido. Se formos ver temos actualmente uma economia política em que não há o tempo e como ele não existe os dirigentes estampam-se porque são incapazes de prever com uma semana de distância.

Nenhum historiador avisou para o que ia acontecer!

Mas nós estamos a viver uma crise prevista pelos historiadores e qualquer aprendiz de historiador sabia isso. No entanto, não houve um economista ou um Prémio Nobel dessa área a antecipar e a compreender o que se passava. Porquê? Porque não viram que o tempo individual e o dos grupos - o tempo da sociedade global - são diferentes.

Tirando o Fukuyama, que falou do fim da História, ninguém fez um aviso!

Também supunha que o Fukuyama é que tinha dito pela primeira vez que a História tinha acabado mas encontrei outro que disse 20 anos antes o mesmo. Mas não está em causa acabar a História, antes compreender como ela se processa e, em face do que se passa actualmente, saber perante o que estamos? Primeiro, pensou-se que nada. Depois, que havia umas manigâncias financeiras e que com intervenção policial e processos judiciais se resolvia o problema. Entretanto, já se desencadeara a crise financeira e foi preciso estar de olhos vendados para não se dar por ela. Mas, mesmo aí, pensou-se que não se iria transmitir à economia real e viu-se que não percebiam de economia porque a uma economia real só se opõe a imaginária! Não tem pé nem cabeça distinguir as finanças da economia porque são parte do processo económico e isso foi algo que os políticos ainda não perceberam porque acham que as podem comandar.

A classe política e económica vai aprender algo com esta crise mundial?

Temo que aprendam pouco porque não há um diagnóstico correcto. Já escrevi que os sinais demonstravam que a crise estava instalada há quatro anos e o diagnóstico feito supõe que o sistema funcionava e que só havia umas distorções que era preciso regular. Sabe-se que a economia não funciona em função do sistema judicial nem com a terapêutica da regulação. É um erro acreditar nisso tal como é o facto da política e da economia descarregarem sobre o sistema judicial o que lhes compete. Até porque o sistema judicial não tem tempo de fazer o que deve.

Tem uma perspectiva muito crítica da actual organização da sociedade.

Historicamente, a seguir à II Guerra Mundial, houve um conjunto de transformações e acções políticas que criaram as economias mistas que funcionaram muitíssimo bem e levantaram a Europa. Deram-lhe um nível de vida e uma capacidade que não existia, foram 30 anos gloriosos em que funcionou muitíssimo bem porque criou sistemas de saúde e de segurança social e houve possibilidade da humanidade se renovar. A partir de certa altura, a reacção de forças económicas oligárquicas, de grandes empresas e forças políticas operaram uma reviravolta - a era de Reagan e de Thatcher - com uma política oposta que destruiu o que se tinha feito.

E em Portugal aconteceu o mesmo?

Sim e os desvarios do 25 de Abril levaram à posição contrária, a de destruir tudo o que havia de melhor e até o que o 25 de Abril trouxe. Houve essa destruição progressiva e as pessoas não se apercebem do que se passa nos hospitais: um descalabro total. Tal como nos sistemas de ensino e económico, que não poderiam escapar no meio desta reviravolta. Além de que a revolução técnica que vem de 1975 para cá criou condições inteiramente novas na economia.

Não gosta de usar o conceito tecnologia?

Gosto de usar tecnologia no sentido próprio! Technos mais logos, a ciência e o discurso lógico, ou seja, o pensamento científico da tecnologia. O que se passa é que quando há uma invenção técnica não estamos na tecnologia mas apenas quando há o pensar cientificamente dos fenómenos técnicos.

E a técnica não ajudou a evoluir o mundo nem sistematizou os sistemas económicos?

Não. Criou condições que têm em si a contradição. Houve uma série de invenções que se industrializaram - computadores e telemóveis - e que, entre as várias características, tem uma que é permitir a automatização do trabalho e redução de mão- de -obra. Além disso, adoptou-se o imperativo do crescimento e todos os anos os números têm de ser superiores mesmo sem se produzir em função de uma procura efectiva. Produz-se por si e o resultado é o mundo estar com os armazéns cheios; não se vende porque o que foi produzido não contava com a redução da procura e o progresso criou uma contradição: maior produção e menor procura. E por isso a crise que temos é financeira mas sobretudo de procura.

Porque o sistema capitalista não se pensa?

Creio que já não estamos no capitalismo. As pessoas apegam-se a nomes, mas a verdade é que tivemos um capitalismo no século XX que foi engolido por uma evolução que levou a um hipercapitalismo em que as empresas que vendiam para o mercado desapareceram e foram substituídas por grandes redes que conglomeram actividades múltiplas e fazem motores de aviões, perfumes e marroquinaria...

Qual será o futuro deste hipercapitalismo?

Este hipercapitalismo engasgou-se porque criou uma contradição insanável. Quando a Toyota despede 20 mil é porque criou um sistema produtivo que é absurdo e não corresponde às necessidades.

E também porque não houve regulação?

Não. Resulta da lógica que se estabeleceu. Se houvesse mercado as flutuações de preços e de quantidades regulavam-se mas quando se diz que o Estado vai regular o mercado está a dizer-se que desaparece o mercado porque o que caracteriza o mercado é ser auto-regulador. Se não é uma economia que é diferente! Esta economia foi levada à obsessão do crescimento e da inovação e resultou em armazéns cheios. Não é por acaso, é que os nossos inefáveis dirigentes políticos, cuja obtusidade é alarmante, dizem que "é preciso inovar" em vez de proporem uma indústria que não venha criar necessidades.

O que motivou o estrangulamento da procura?

O estrangulamento da procura resulta do excesso de produção e saturação de mercado e das pessoas.

Acusa a classe política pela situação. Acha que a nossa classe política não está à altura?

Acho que a nossa classe política é mais do que lamentável. Os nossos políticos não têm ideias e não debatem. Assiste-se a qualquer sessão do Parlamento e verifica-se que há afirmações mas nunca as demonstram. Diz-se que o TGV é fundamental mas ninguém o justifica. Quando há uma crítica ninguém responde, porque há uma incapacidade de argumentar nos nossos políticos. Em todos!

À excepção do primeiro-ministro!

É a pessoa que mais me confrange porque ainda não o ouvi responder a uma pergunta com argumentação. Até deixei de o escutar.

Então pensa que este Governo não sabe o que está a fazer?

Sabe sim, infelizmente. Sabe como destruir o Sistema Nacional de Saúde e o ensino público, como entregar as universidades aos privados... Sabe pôr de parte todas as conquistas do mundo civilizado.

Neste livro contesta o fim das ideologias!

Eu digo que não acabaram as ideologias.

Houve, então, um esvaziamento das ideias?

Os que dizem que as ideologias morreram têm uma ideologia: a actividade privada, o lucro e um sistema de governação que na aparência imita a democracia mas não o é realmente. Nós não temos democracia em Portugal, isso é fantasia.

O que é que nós temos?

Um Estado corporativo como Salazar sonhou e nunca conseguiu. Realizámos o que desejava, que é o poder nas mãos de organizações profissionais.

Quem tornou esse sonho em realidade?

O Governo actual e os últimos… Foi uma evolução num país que era feito à medida para conservar o mais possível a sociedade tradicional em que Salazar acreditava. Portugal ficou no século XIX e como não era moderno não havia preparação para o que veio com o 25 de Abril . Voltaram-se aos defeitos antigos e acrescentaram-se os modernos. O movimento militar acabou com esse regime odioso de 48 anos sem uma transformação social geral. Imitaram-se modelos estrangeiros, houve a sedução pelo trotskismo, pelo maoísmo e por coisas que nem sabíamos o que eram, que resultaram no desencontro entre o importar de ideias e os programas que não tinham nada a ver connosco. Portugal continua a imitar o que se faz lá por fora.

 

Pela clarividência, seriedade e rigor do entrevistado, Prof. Vitorino Magalhães Godinho, não podia deixar de não publicar a magnifica entrevista que deu ao jornal Diário Noticias em 27 de fevereiro de 2009.

 

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publicado por Barto lo meu às 11:26 | link do post | comentar

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