A história do José Hipólito e da Cesalina Carvalhais- Edição de 21-07-2011 " O Mirante"

Há dez anos a trabalharem na Holanda para pagarem às finanças a penhora da casa dos seus sonhos
A história do José Hipólito e da Cesalina Carvalhais que venderam tudo e emigraram para defenderem o bom nome 

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As notícias que vão abrindo os noticiários das televisões contam cada vez menos a realidade do país em que vivemos. A falência dos políticos portugueses e da política à portuguesa faz com que as nossas principais instituições se degradem e sirvam apenas os interesses de alguns. Vivemos numa democracia, é verdade, mas muitas das instituições que nos sustentam como país são literalmente fascistas nas suas organizações. José Hipólito e Cesalina Carvalhais têm uma história de vida para contar que é um bom exemplo de alguém que é vencido pelo sistema.

Não sei por onde começar a transcrição desta conversa. Tenho a cabeça cheia de ideias para escrever um texto diferente mas por outro lado tenho receio de subverter as regras logo na pior altura que é a de contar uma história de vida que eu considero um bom exemplo. O que me apetecia era pegar nas histórias de uma dúzia de empresários da minha região, que foram à falência nestes últimos dez anos, e depois juntar a história do José Hipólito e da Cesalina Carvalhais que há dez anos saíram deste desgraçado país e emigraram para a Holanda de forma a não sucumbirem nos destroços do país onde nasceram e têm o coração.

Enquanto a conversa vai ganhando corpo no papel, com o barulho do gravador em fundo, começo a ganhar consciência que o meu objectivo não é escrever um livro à Medina Carreira. Só nos altares das igrejas Deus ainda descansa do seu martírio. Nos altares da economia portuguesa já toda a gente perdeu a inocência. E até os políticos já conseguem convencer alguns descrentes que desta vez vão governar mesmo a sério; que daqui por alguns meses não estão todos a ceder outra vez aos lóbis dos banqueiros, dos sindicalistas, dos dirigentes associativos da CAP e da CIP e companhia limitada.

Desfeita a ilusão de que esta história exemplar do José e da Cesalina se podia escrever como se escreve um livro (com muitas páginas e puxando todos os fios do novelo), aqui fica o resumo de duas horas de conversa com um Homem e uma Mulher que eu conheço desde sempre.

O José Hipólito é conhecido na Chamusca como empresário de aluguer de máquinas. É homem de trabalho como os ursos são animais da floresta. E fez de quase tudo na vida antes de viajar para a Holanda. Como quase todos os homens da sua geração começou a trabalhar antes de conhecer os bancos da escola. E nunca mais parou de trabalhar e de dar o seu melhor pela sua terra e pela sua gente. Até ao dia que sentiu que ia ser engolido por esta máfia portuguesa que está a destruir o país e uma sociedade de homens sérios e honestos que não se limitaram a conseguir trabalho para si, e organizaram a vida para terem trabalho também para os seus vizinhos, amigos e cidadãos em geral.

José Hipólito é a prova de que é perigoso conviver com o sistema, ou tentar fazer parte dele, se não tivermos os pés bem assentes no chão. Basta um advogado manhoso, um cliente com más intenções, ou um mau colaborador, e vai tudo por água abaixo. Dinheiro e reputação; vida própria e familiar; sossego e consciência; e, acima de tudo, aquilo que ainda é a maior das riquezas de um homem que é a honra e a vergonha.

Há muito tempo que me recuso a ouvir e ver televisão às horas dos noticiários. Chega de lavagem ao cérebro. Foi a pensar na imagem da minha televisão sem som na hora do jantar que comecei a minha conversa com o José Hipólito e a Cesalina Carvalhais para tentar perceber como é que eles se tinham entendido com os seus chefes de trabalho na hora de chegarem à fábrica holandesa, na região de Zeiland, numa pequena vila chamada Waarde. Eis a resposta que dá início ao discurso directo dos meus dois entrevistados que são um exemplo de resistência às adversidades da vida.

 A língua portuguesa é a nossa maior riqueza.

Com a questão da língua foi difícil, responde Cesalina, mas com a força de vontade de vencer tudo se torna fácil. Gestualmente foi como resolvemos o nosso problema nos primeiros tempos. De resto ainda hoje, e passados quase dez anos, sou a única portuguesa no meio das chinesas. E europeias sou eu e mais quatro. O resto veio do Vietname, da Malásia e do Gana. Falamos muitas línguas ao mesmo tempo (risos). Mas o português é uma língua que está presente em todo o mundo pelas mais variadas circunstâncias. O meu encarregado geral, que é holandês, tem um irmão no Brasil e então aproveita para treinar o português comigo para poder também falar com o irmão. Uma rapariga chinesa que tem um namorado italiano interessa-se muito pelo português e eu vou ensinando o que sei, o que também me ajuda a aprender a língua deles.

Tivemos uma vantagem de início. Já lá tínhamos o nosso filho e a minha nora. E agora também lá temos o nosso neto. Trabalham os dois e foram primeiro que nós. Foi naquela altura, enquanto eu fiquei a arrumar a casa em Portugal, depois de decidir que a melhor forma de resolver a nossa vida era emigrar, conta José Hipólito. Foram eles que nos arranjaram trabalho. Na altura não havia portugueses naquela região agora são mais que os holandeses.

Mas afinal o que é que fez transbordar a água do copo e vender tudo e deixar para trás uma vida de trabalho?

Não foi só um problema com falta de pagamentos e compromissos que assumiram comigo. Foram várias situações. Algumas são pequenas dívidas mas tudo somado dava muito dinheiro. Mas eu conto-te os casos principais para perceberes melhor. Para sair destes trabalhinhos por aqui que só empatavam comecei a transportar pedra para Itália.

No ano 2000 fomos para França fazer a campanha da beterraba e só aí ficaram sessenta mil euros. Isso complicou tudo ainda mais. Mas onde tudo começou verdadeiramente foi aqui na Chamusca ao fazer o aterro do edifício da antiga Zona Agrária. Ficaram-me a dever quase 15 mil euros. Na altura era muito dinheiro. Meti a firma em tribunal porque já não aguentava mais que fizessem pouco de mim. Esta história é muito engraçada e talvez pudesses escrever um livro com ela se tivesses vagar para fazer pesquisa. A firma em causa, depois de eu fazer queixa em tribunal, por não cumprir os pagamentos, alegou também em tribunal que eu lhes dei um prejuízo de 100 mil euros. E então a partir daí só me pagavam o que me deviam, que eram mais ou menos 10 euros, se eu lhes pagasse os 100 mil. Percebes a chantagem? Já viste como as coisas funcionam? E porque é que eu lhes dei o prejuízo? Porque com o problema em tribunal que eu lhes coloquei por ter feito queixa, eles deixaram de poder concorrer às obras públicas. Foi já para os pressionar a pagarem-me que eu os meti em tribunal. Mas saiu-me o tiro pela culatra. E como retaliaram ainda fui multado por não ter passado as facturas na data certa, o que foi mais outra patifaria que me fizeram. E aqui entra o meu advogado. Ou ele é muito incompetente ou este mundo gira ao contrário e os cães comem com os lobos como já dizia o escritor Aquilino Ribeiro. Ainda por cima é um advogado que em tempos me deu serventia nas obras, que era meu amigo, pessoa a quem eu ajudei noutros tempos da vida pobre. Mais tarde formou-se na advocacia enquanto andou na tropa e é o que já te contei. Entretanto ele passou a rico e eu quase que caía na miséria. Ainda há um mês o procuramos pessoalmente e a resposta foi: eu depois ligo lá para casa para combinarmos o nosso encontro para vermos como vamos fazer no futuro. Foi até hoje. É um processo com dez anos. Estas coisas não se fazem a um cidadão no século XX. Mas eu juro que isto não fica assim. Nem que seja antes da hora da morte eu hei-de conseguir que me façam justiça.

Depois foi aquele trabalho de caminhar para França. Foi um desastre. Somei mais de 60 mil euros de facturação e queriam que eu recebesse aos quinhentos euros de cada vez. Fui para um advogado e a resposta foi que a justiça francesa ainda era mais lenta que a portuguesa. E já lá vai mais de uma década e o dinheiro ainda lá anda. E tinha contrato escrito com essa empresa. Com dois semi-reboques ao serviço deles e quatro motoristas a tempo inteiro. Trabalho de escravo para saírmos da crise, pagando com o corpo, como sempre foi e provavelmente sempre será. O problema é que basta escolher os parceiros errados e está tudo estragado na nossa vida.

A história com a empresa francesa está entregue a uma advogada de Almeirim e a conversa continua na mesma. Dizem que a justiça francesa continua mais lenta que a portuguesa. Mas eu não desisto. Eu sou um fala-barato e tenho amigos franceses que já prometeram ajudar.

Com esses problemas todos resolvi vender tudo e ficar com a minha casa antes de ser leiloada pelo fisco. Passados estes anos todos ainda estou a pagar a casa embora seja pela segunda vez pois ela já estava paga há muitos anos.

Mas ainda estás a pagar porque queres uma vez que já emigraste há quase dez anos?

Não, esse é que é o problema. Um ano e meio depois de emigrar tive um acidente numa máquina que me papou um dedo da mão. Já fiz oito operações ao braço. Isto correu mal logo desde o início e agora não me deixam trabalhar. Temos que viver do meu ordenado mínimo e do ordenado da minha mulher que, ela sim, já tem contrato definitivo e trabalha as horas que pode.

A mim não me deixam trabalhar. Dizem que eu não tenho condições. Só posso fazer voluntariado. Mas posso viajar e ir para onde quiser. E só não estou a fazer voluntariado porque moro muito longe do hospital da região e as viagens ficavam muito caras.

Aos sessenta anos já posso pedir a reforma antecipada. Eu estou a um ano de poder pedir. Julgo que com as nossas duas reformas podemos fazer a nossa vida descansados. Só precisamos de acabar de pagar às finanças, diz Cesalina de volta à conversa a três enquanto ouço os desabafos sobre advogados manhosos e empresários astutos que andam nesta vida para enganar meio mundo.

Vimos dois meses de férias porque faço muitas horas a mais e eles não podem pagar tudo em dinheiro. Se eu receber essas horas mais de setenta e cinco por cento vai para a segurança social. Assim vale mais gozar férias. Aproveitamos para descansar e matar saudades do país, desabafa Cesalina.

Deixei 32 anos de trabalho para trás por causa de não me pagarem. Se me pagassem eu nunca iria para o estrangeiro. Aquilo que eu mais adorava era a minha empresa logo a seguir ao meu filho e à minha mulher. Eu tinha orgulho no meu trabalho e em ver o fruto do meu trabalho. José Hipólito volta a bater no ceguinho e rememora aquilo que teve que viver há uma década para se manter de pé e não fazer má figura com as pessoas que sempre confiaram nele. E nos desabafos que não interessam para esta reportagem curiosamente até os nomes dos homens que trabalhavam no fisco aparecem como pessoas amigas e que sempre o atenderam com simpatia, amizade e consideração. Não há ingratidão nem ressentimento nas suas palavras a não ser para aqueles que o traíram ou fizeram dele gato-sapato.

Quando eu percebi que já não aguentava mais a pressão vendi as máquinas e as camionetas. Tinha cinco retro escavadoras, uma giratória e uma bulldozer, uma D6 H , mais as cinco camionetas. E todas as máquinas tinham um operador. Trabalhava aqui à volta e ia para sul e para norte de Portugal a qualquer dia da semana. Os alicerces das pontes de Fátima para o troço da A1 foram feitos por mim em subempreitada. Foi aí também que eu comecei a ver as minhas dificuldades pois comecei a caminhar para Lisboa, para a 24 de Julho, para receber. Na altura três mil contos de trabalho podiam derrubar um homem. Eu sempre vi as dificuldades à distância. Quando percebia que as coisas estavam a ficar difíceis começava a vender as máquinas para não me enterrar ainda mais. Nessa altura já não era fácil vender máquinas em segunda mão. Então juntava duas e comprava uma nova. E assim fui andando até que chegou a altura das finanças entrarem em acção e quererem a minha casa. E foi aí que resolvi dizer, alto, ponto final nesta história. Fiz as contas e vi que a venda das máquinas todas pagavam as dívidas que eu tinha por aí. Só ficava de fora a dívida às finanças. Negociei e lá vou eu e a minha mulher para a Holanda onde há, apesar de tudo e de todos os defeitos, uma justiça que funciona e uma sociedade organizada onde o poder político não é corrupto e faz crescer a justiça social e a igualdade de direitos a cada geração que passa.

José Hipólito e Cesalina Carvalhais têm ambos 58 anos. Fomos para lá aos 50 anos e devíamos ter ido aos 30. Com o amor à camisola andei aqui pela Chamusca a dar cabo da vida. E tive tantas hipóteses de emigrar para a América. O José Manuel Campos convidou-me tanta vez para ir trabalhar com ele para a América e eu por causa desta vida fui sempre ficando preso às máquinas novas que ia comprando ou trocando pelas velhas. Isto há trinta anos. Estou agora a pagar o preço de ter ficado agarrado às fraldas da terrinha onde nasci e onde gostava de fazer boa figura.

A Cesalina confirma. A vida agora é outra coisa. Não é melhor. Lá isso não é. Só que vivemos mais descansados. Mas quem nunca emigrou não sabe o que se sofre.

Casa trabalho e trabalho casa. É uma vida de escravo. E a Holanda não tem o nosso sol. O tempo é tão irregular. De uma hora para a outra passa de um tempo de Primavera para o tempo de Outono. E a vida perde o encanto porque estamos longe das nossas raízes e das nossas referências e daquilo que sempre sonhamos.

José Hipólito remata a conversa: Ficou muito dinheiro espalhado por aí. Andei a acabar a casa dos outros e a minha ficou por acabar e agora tenho que a pagar duas vezes e com juros bem altos.

 

É a realidade do país que trabalha e que é honrado ! Para os vendedores de ilusões, assim como para os profissionais da distração, o seu país é outro, o de ganhar dinheiro desonestamente, sem olhar a meios! 

 

Portugal não consegue sair do marasmo, e mesmo da decadência, sem resolver o problema da falta de justiça!

 

publicado por Barto lo meu às 16:32 | link do post | comentar